Eu Sou Minha Própria Mulher – Um Traídor de suas convicções.

Na peça “Eu Sou Minha Própria Mulher”, o ator Edwin Luisi interpreta vários personagens para contar a história do travesti Charlotte Mahlsdorf, morto em 2002, aos 74 anos.

Ele atravessou o nazismo e, depois, o comunismo da Alemanha Oriental, montando e preservando um museu e um cabaré gay num porão.

Em alguns momentos nós, pobres expectadores do Teatro Laura Alvim onde se hospedou a mais recente temporada do espetáculo, também nos sentíamos prisioneiros e torturados pela péssima acústica e pelas poltronas no balcão, absolutamente não nobre e equipado com poltronas absolutamente não ergonômicas e lesivas à postura de um ser humano, qualquer que fosse sua estatura e compleição.

Tal desconforto, provocado pelo descaso de uma casa tida como de cultura em plena Avenida Vieira Souto, permitia que os  espectadores mais exigentes se perdessem em pensamentos desgostosos sobre a peça, indagando sobre o por quê de uma peça tão longa para contar a história de um travesti que, nos anos 70, assinou um documento para os agentes da Stasi com o seguinte conteúdo:

 “Eu, Lothar Berfelde, me comprometo, de livre e espontânea vontade, a trabalhar junto ao Ministério de Seguranca do Estado. Reportarei toda e qualquer ação que pareça de caráter inimigo do Estado”.

Ele chegou a ter um nome-código – Park – e reportou à polícia secreta transações ilegais de antiguidades, sendo responsável, inclusive, pela prisão de um amigo colecionador.

Tudo isso veio à tona, porque depois da unificação das Alemanhas, qualquer cidadão pôde pedir uma copia dos arquivos da Stasi.

Charlotte evidentemente tinha mantido a colaboração com o regime em segredo. Mas, a imprensa, com acesso aos arquivos, logo divulgou seu prontuário.

Em suma, um traídor de suas convicções.

“Eu Sou Minha Própria Mulher” pôde, até mesmo, comover a Brodway, pois lá não se convive com tantas pessoas de “boas intenções” como aqui no Brasil.

O que valeu, além dos primorosos figurino, iluminação e cenografia, foi o exercício de interpretação do ator Edwin Luisi, que merecidamente, foi premiado por sua atuação como Charlotte Mahlsdorf.

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