Valente! – Teatro Glaucio Gil

Valente!

O musical “Valente!” – versão 2008 – Rio de Janeiro – é uma semente que deve ser germinada de forma ambiciosa. Até que um dia, seja transformado numa superprodução digna de palcos e platéias de maiores dimensões, em teatros com maiores recursos. Encenado, de forma tímida, no Teatro Gláucio Gil, contou com direção de Claudio Villela, cenários e figurinos de Colmar Diniz, texto de Anamaria Nunes e atuações de Claudio Villela como Assis Valente, Regiane Heattes como Carmen Miranda e Milton Filho como Madame Satã.

Saímos do teatro com a sensação de que muita coisa faltava no musical – não tirando o mérito de todo o esforço empenhado no trabalho sério da equipe, mas talvez, por limitação de verba de patrocínio.

Embora o musical seja desenvolvido com base em um texto rico e instigante, ninguém sai comentando sobre o que acontece no palco, ninguém cantarola – mesmo que indevidamente – durante cada sucesso interpretado ou aplaude ao término de cada um -senão pelos artistas, mas pelo menos, pela homenagem prestada.

O musical não consegue alcançar o público da mesma forma as gravações atuais dos diversos sucessos apresentados facilmente o fazem. 

O nível contínuo de dramaticidade da iluminação cênica – perfeita para retratar a noite em que Assis Valente se entrega ao suicídio – inibe qualquer reação da platéia que não seja o silêncio.

Faltaram interrupções na linha da dramaticidade, através das quais os sucessos de Assis Valente pudessem ser identificados e assistidos pela platéia animados por coreografias, por interpretações vocais e enriquecidos pela sonoplastia e pela iluminação de modo a mexer positivamente com os ânimos dos espectadores – mesmo que, ao final de cada sucesso apresentado, a atmosfera dramática fosse retomada.

A cantora-atriz Regiane Heattes, que interpreta os sucessos de Assis Valente como Carmen Miranda, não se impõe à altura de tal compromisso, nem através de sua voz, muito menos através de sua interpretação.

Nem mesmo quando Assis Valente/Claudio Villela interpreta as canções mais conhecidas e empolgantes faz com que a platéia interaja com o que está sendo proposto.

Parecia que todos os personagens, inclusive Assis Valente, eram meros coadjuvantes do musical.

Madame Satã/Milton Filho não demonstrou assumir a força do personagem e nem causou graça, apesar da incessante tentativa do ator em provocar risos da platéia através da forma afeminada de interpretar o viril e malandro transformista.

Assis Valente tentou suicídio por várias vezes. Somente na terceira, e com seus 47 anos, misturando guaraná com formicida, conseguiu o que tanto almejava.

O musical deixa, nas entrelinhas, a possível homossexualidade do cantor e talvez, por esse fato, tamanha admiração pela morte.

Certo descuido da produção, decorrente de uma quase clara falta de verba de patrocínio, não faz com que o musical seja classificado como ruim. Muito pelo contrário, não deixa de ser um registro histórico válido e digno de ser assistido.

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